Misquilinas Variadas - Um Quinhão de Sabedoria Inútil


FIM

Este blog acabou.
Já venho pensando em fazer isso há tempos, mas agora decidi que uma hora tinha que acontecer.
Continuarei blogando, ainda que de maneira um pouco diferente, no meu novo blog do Wordpress (misquilinas.wordpress.com). Os contos e crônicas seguem semanais na coluna Ópio no Café, da Revista Paradoxo (www.revistaparadoxo.com), e de vez em quando no meu novo blog.
Obrigado a quem sempre leu, e me desculpem por qualquer coisa. Quem sabe um dia este blog não ressurge?

Por enquanto, vejo vocês no Wordpress.
Um beijo.

Escrito por Bruno às 17h46
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O louro indócil

Era outubro quando conheceu o louro desbocado que pedia insistentemente para que colocasse uma parte do seu corpo sobre a dele, ou algo do tipo. Parecia sórdido à primeira vista, fazia questão das palavras de baixo calão e não respondia uma pergunta sem um "porra" ou "caralho" no meio. Isso quando se dignava a responder a alguma coisa. Gesticulava muito, sempre com uma suavidade nos movimentos que em nada condizia com seu vocabulário chulo, e fazia toda a sorte de movimentos com os dedos que significasse qualquer coisa relacionada a sexo. Dava a impressão de ter como única diversão - e ocupação - a arte de chocar o seu interlocutor. Mas ela o amou.

Quando ela oferecia comida ou bebida ele respondia com alguma agressão barata. Aproximava dele um garfo lotado ou um copo cheio e recebia uma achincalhada que faria qualquer um recuar de primeira. Ela, não. Falava baixinho perto de seu ouvido, tentava acalmá-lo, torná-lo menos irritadiço, mas seus esforços eram quase sempre em vão. Perdeu a conta de quantas vezes derramou água, suco de tomate, lasanha ou filé pelo quarto. O louro desbocado preferia sentir fome a passar sem seus esporros homéricos. Queria vê-la desistir, queria ver todos desistirem de si, para que pudesse deixar a vida sem deixar saudade. Não conseguiu com ela, e isso o deixava entre apaixonado e revoltado.

Em novembro, ela resolveu não se aproximar mais. Dava a impressão de que, sem ela por perto, ele logo estaria de volta ao convívio social, ileso. A moça ficava da porta apenas, dava uma ou outra instrução silenciosa, indicava com a ponta dos dedos os locais onde ele precisava de assistência, e logo depois fechava a porta e se trancava do lado de fora, com os olhos mareados e a cabeça fervilhando em uma paixão descabida. Nada mudou. O louro continuava áspero com quem se aproximasse, era tomado como "o mais grosso de todos" pelas pessoas que por lá passavam diariamente, e alguém chegou mesmo a comentar que só ela poderia fazê-lo agradável novamente.

Entre um e outro que ia e vinha ao som de impropérios variados nos cuidados ao enfermo, ela resolveu pegar novamente no batente antes de dezembro começar. Limpou o cocô, deu banho com um pano úmido levantando as pernas que ficariam para sempre imóveis, alimentou como se fosse um filho. Faltava pouco para que ele pudesse sair dali, e ela não via a hora de poder retirar os curativos e fugir dali com ele em disparada, rumo a algum lugar onde pudesse ser xingada com um sorriso esburrando no rosto. Não houve tempo. Antes da primeira refeição daquele cinco de dezembro o louro teve um mal súbito, fruto de uma piora que não deixava que tratassem, e morreu antes mesmo de xingá-la como despedida. Apesar de mais essa última falta de sensibilidade, ela o amou até o fim.

Escrito por Bruno às 17h54
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Férias

Olá, pessoas que ainda visitam o Misquilinas. Venho avisar que estou de férias, totalmente descompromissado com tudo (menos com a minha coluna da Gazeta, por motivos óbvios), e não devo mais atualizar o blog este ano.
Novos textos, só em 2008.
Obrigado de qualquer forma a quem ainda visita. Boas festas e até o ano que vem.

Escrito por Bruno às 12h49
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À procura de você

Quando a saudade me deixa completamente surdo, sou capaz de recordar cada vez que nos encontramos. É algo que me acontece com certa frequência, devo confessar. Vivo em um limbo profundo sem você, tomado até os ossos por uma saudade tão dolorosa que nem mesmo os remédios para dormir são solução nas noites em que ela bate. Eu tento seguir em frente, mas me desespero quando não consigo escutar meus próprios gritos. Hoje é um desses dias, e não me furtarei em dividir minha aflição com você.

Na primeira vez que te vi nada parecia de verdade. O céu estava tão cheio de nuvens fofas e de diversos formatos que pareciam ter sido colocadas ali por algum escultor habilidoso. As ruas estavam incrivelmente vazias, não passava sequer um carro, um ciclista ou um pedestre distraído. E você tampouco parecia ser real. Estava mais para uma personagem de conto de fadas, com aquele vestido brilhante que se arrastava no chão, o chapéu rosa pontudo na cabeça e nas mãos uma varinha de condão com uma estrela na ponta. Eram sete horas da manhã e eu deveria adivinhar que você estava voltando àquela hora de uma festa a fantasia. Revejo essa cena várias vezes na minha cabeça.

Dias depois passei por você na calçada da sua casa. Te vi caminhar alguns metros, abrir o portão e entrar sem olhar para trás. Eu ia atravessar a rua, mas desisti. Lá de dentro vi que seus olhos me procuraram, curiosos pelo segundo encontro em tão poucos dias. Nunca nos tínhamos visto, e agora já nos sentíamos conhecidos um do outro, ainda que à distância. Também pendi a cabeça para o lado para observar você sumir nas folhas verdes do seu quintal, mas consegui ver muito pouco. Seu blusão azul logo desapareceu no meio daquele jardim primaveril, e eu segui meu caminho imaginando se você tinha mesmo me procurado com o olhar ou se eu havia criado a curiosidade alheia.

Uma semana se passou até que eu te visse de novo. Desta vez eu estava sentado na cadeira do barbeiro, olhando para o teto mofado e cheio de infiltrações, ao mesmo tempo torcendo que nada pingasse na minha testa enquanto minha barba era aparada. Uma moça entrou e perguntou se alguém sabia a que horas o mercadinho ao lado fechava. De canto de olho vi apenas a calça jeans, surradade fábrica, e um braço de pêlos suavemente loiros que se alongava até a mão segurando uma pequena lista - que assumi como a lista de compras para o mercadinho que já havia fechado há alguns bons minutos. Apenas quando me dei conta de que podia ser você pedi ao barbeiro um minuto para me ajeitar na cadeira. Levantei o rosto e dei de cara com seus olhos enormes e atentos aos meus movimentos. Por menos de um segundo eu não soube o que fazer. Foi aí que você agradeceu ao barbeiro pela informação, virou as costas e foi embora sem nada mais falar.

Na quarta vez eu já esperava o que ia acontecer. Passava das onze da noite e aquele bar mal iluminado já se preparava para fechar as portas. Uns pediam o chope derradeiro, outros tragavam seus cigarros como se fossem os últimos de suas vidas. Você apenas olhava para o céu escuro e vazio de estrelas, enquanto um cidadão qualquer de cabelos despenteados e camisa amarela falava sem parar do outro lado da mesa. De dentro do meu carro observava o final daquela cena, torcendo que saísse de lá sozinha. Em vão. Cinco minutos depois vocês se levantaram, ele ainda falando e você ainda muda e a olhar para o alto, deram as mãos e rumaram estacionamento adentro. Logo saiu um belo carro prateado, imenso, e lá de dentro você continuava entretida a procurar estrelas naquela imensidão negra.

Eu não queria que tivesse uma quinta vez. Me senti traído, passado para trás. Te ver com outro cara não estava nos meus planos, e eu nunca iria imaginar que naquele mesmo dia vocês terminaram pela terceira e última vez um namoro que nunca deveria ter começado, segundo suas próprias palavras. Resolvi que não passaria mais pela sua rua, deixaria a barba crescer, se preciso até os joelhos, e que nunca mais iria parar na frente dos bares para procurar esses cabelos encaracolados. Mudei meu trajeto de volta do trabalho e de saída da faculdade, tudo para não dar de cara com você. E até hoje me pergunto o que você estava fazendo no meu prédio aquele dia, e como a gente conseguiu trocar cumprimentos tão formais depois do susto de te ver entrando no elevador. E, diabos, quem mora no quinto andar?

Nesse dia eu achei que havia recebido uma clara mensagem do destino. Voltei para meus caminhos habituais, certo de que encontraria com você mesmo que eu não quisesse, porque assim queria o destino e é ele quem rege a nossa vida. Mas passei quase uma semana sem esbarrar contigo. Aquilo me preocupou tanto que passei a carregar comigo uma câmera fotográfica digital, dessas tecnológicas, de zoom poderoso, que aproximam o objeto da foto dezenas de vezes. Queria registrar a sua imagem e guardar comigo para os dias em que não nos encontrássemos. A sexta vez demorou, mas chegou. Eu não fazia idéia do quanto ela seria decisiva.

Você entrou por aquela porta verde do mercadinho, pediu alface, rúcula, majericão e parou ao meu lado. O "oi" que eu ouvi me fez viajar quilômetros até a resposta, que pode parecer óbvia agora mas soava como o grande mistério do universo naquele momento. Respondi quase sem voz, e você já emendou dizendo que me viu em um monte de lugares, que parecia que me conhecia há anos, que sempre teve vontade de falar comigo mas faltava um pouco de coragem. Eu respondi meio sem graça que fui pego de surpresa, pensava o mesmo mas nunca tinha tido coragem de falar. Você começou a puxar conversa, comentou do seu namoro recém-terminado e contava que voltava de uma festa a fantasia no dia em que nos vimos pela primeira vez, quando recebeu da funcionária do mercadinho o seu pedido em sacolas plásticas. Logo recebi o meu e fui pagar a conta. Você disse que esperava me encontrar de novo e foi saindo do mercadinho, quando eu chamei "ei!". Você se virou com a expressão mais encantadora no rosto e eu fui veloz em fotografa-la neste momento. Um outro sorriso surgiu na hora, um pouco encabulada mas feliz, momentos antes de você dar um beijo no ar e ganhar a rua.

Eu já havia me acostumado com a rotina de querer te encontrar, mas não imaginei que te conheceria assim, tão abrupto, tão rápido, tão pouco. Foram meses a fio frequentando os mesmos lugares, passando pelas mesmas ruas, sempre com a minha câmera na mão e rodeado de esperança de te encontrar novamente - algo que nunca aconteceu. Até hoje não faço a mínima idéia de onde você se meteu, se por acaso se mudou de casa, de cidade, quem sabe até de país. Nem sei mais o que esperar, se mantenho minhas esperanças acesas ou se luto por uma desistência interna. Alguma coisa precisa ser feita. O que não dá é continuar a conversar com a única fotografia sua que tenho toda vez que essa saudade atordoante, de alguém que mal conheci, aperta e me deixa surdo por completo.

Escrito por Bruno às 11h43
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Uma música, muitas lembranças

É incrível como uma música é capaz de trazer tantas lembranças empoeiradas de volta à tona. Uma canção apenas, não é necessário mais do que isso, e me vejo de novo aos 11 anos, com todas as dúvidas e certezas da época, em pleno ano de 1992. Não existia internet nas casas, os discos ainda eram basicamente de vinil e o CD, grande novidade, apenas começava a incomodar o mercado. A moeda vigente ainda não era o Real, Michael Jordan era o rei do basquete, o Flamengo era um time freqüentemente campeão e a vida era, sim, um bocado mais fácil de se levar.

As responsabilidades que me cabiam não passavam de fazer os deveres de casa e me comportar direitinho na escola - e mesmo essas eu conseguia não cumprir direito. As alegrias eram jogar bola a tarde toda, ir para o clube com os amigos após as aulas de inglês, contar os dias para as férias e ouvir música, muita música. A minha trilha sonora da época não era lá muito variada, mas posso dizer que me sentia um privilegiado quando notava que boa parte dos meus amigos ainda ouviam músicas infantis enquanto eu já possuía alguns discos de rock. Principalmente da banda que marcou minha infância e pré-adolescência: o Guns n' Roses.

Hoje resolvi ouvir a banda novamente. Não me pergunte por quê, não saberia responder. Só posso dizer que aqueles tempos de criança, "virando rapazinho", voltaram com força total quando "Estranged" começou. São nove minutos e vinte segundos de um hard rock progressivo de melodias quebradas. Guitarras, baixo, teclados, piano e bateria seguindo caminhos tortuosos, onde a voz de Axl Rose, normalmente estridente a ponto de rasgar os tímpanos, fica boa parte em um timbre mais grave e agradável aos ouvidos, encharcando a canção de uma melancolia poucas vezes vista na carreira da banda. A letra, quase depressiva de tão triste, cai como uma luva no caudaloso rio de diferentes melodias.

Imediatamente me vem à mente o quarto de hóspedes do meu antigo apartamento, onde ficavam o aparelho de som, os discos de vinil e alguns poucos CDs, uma cama sempre confortável, um armário embutido com roupas que sobravam em seus locais de origem e uma pequena estante abarrotada de livros diversos, nossa dileta biblioteca. Era lá que eu passava boas horas do meu dia ouvindo as músicas e tentando acompanhar as letras no encarte dos discos, sob o sol castrador de Cachoeiro que nunca dava folga. Era lá que, junto com meus amigos e meu irmão, colocávamos os álbuns em altura máxima e fingíamos cada um ser um membro da banda - eu era o vocalista. Mal conseguíamos ouvir a própria voz naquele cubículo de portas e janelas cerradas. Imitávamos os trejeitos de cada membro do grupo, pulávamos, gritávamos, ajoelhávamos no chão. Chamávamos isso de "brincar de Guns".

Daria um pedaço de mim para poder voltar àquele tempo como espectador, para apenas observar aquelas crianças enlouquecidas pela música desde tão cedo. Hoje consegui voltar por alguns instantes àquela época enquanto "Estranged" tocava no meu iPod repetidas vezes. Voltei e revi a vontade absurda que eu tinha de aprender inglês. Revirava as gavetas do meu irmão atrás de seus livros de inglês - de alguns níveis mais elevados que o meu - e tentava aprender na marra, lendo os exercícios e tentanto resolvê-los. Revi minhas idas e voltas para a escola caminhando com preguiça debaixo do sol que não dava trégua nunca. Senti novamente o medo dos pivetes, que já naquela época rondavam a Beira Rio à procura de sandálias Kenner, tênis Nike, bonés do basquete americano (os oficiais, de sei lá quantas linhas na aba) e relógios G-Shock. Enquanto as guitarras de Slash praticamente falavam em "Estranged" eu revivia os meus amores da época, a chegada confusa do sexo nas noites de festa americana e as conversas fiadas sobre possíveis (e hoje inimagináveis) façanhas que gostaríamos de realizar alguns anos à frente. Era impossível não recordar o basquete jogado sem tabela, o futebol sem gol e o videogame sem fitas, as horas intermináveis de espera nas locadoras de game à procura daquele jogo de futebol americano ou do famoso "Lakers vs Celtics", que tantos calos rendeu.

A mistura suave do piano tocado por Axl e da guitarra destrinchada por Slash eram guiadas pelo simples conjunto bateria-baixo. A voz antes grave começava a se tornar estridente novamente. Algumas frases jogadas, versos sem tempo obrigatório apenas pontuando o instrumental, e a minha mente viajava pela cidadezinha abafada, apinhada de gente nas ruas do Centro - alguns procurando a sombra amiga das árvores das pracinhas, outros entrando nas lojas para curtir um pouco do ar condicionado antes de se aventurarem no asfalto novamente. E eu, estranhamente, não me sentia no meio de tudo aquilo, ainda que fosse apenas mais um garoto que passava na rua, mais um a fazer aulas de inglês, outro que comia o enroladinho com coca-cola no Much Caldo e jogava basquete no Jaraguá às terças e quintas. Só agora consigo perceber a quantidade de coisas que aconteciam ao meu redor e como eu estava inteiramente conectado a todas elas.

São quase dez minutos de música, todos eles inteiramente dedicados a uma volta às origens cachoeirenses. Lembranças dos amigos Brunner e Pitanguinha, do uniforme branco, vermelho e azul da escola, da piscina do Sesi e da quadrinha que mais parecia uma gaiola de loucos, das subidas e descidas no Ed. Tinah, das visitas à tia Marluce, das implicâncias com a Marcela e das brincadeiras com o ainda pequeno Ronalsinho, da pouca profundidade das coisas da vida, do Rio Itapemirim que borbulhava bosta e cheirava a morto. Era tudo mais fácil, menos complicado. E eu não estaria aqui agora se nada disso tivesse acontecido.

Escrito por Bruno às 09h55
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Amor tardio

Naquele dia o sol entrava e saía de trás das nuvens sem descanso. Sentado em um banquinho desconfortável e sentindo o calor penetrar minhas entranhas sem o menor pudor, eu tentava me desviar dos ocasionais raios que entravam pela janela. Era como um passatempo. uma forma de não me deixar pensar demais em tudo aquilo. A bem da verdade, era uma maneira de me proteger de mim mesmo e dos meus devaneios. Mas a pergunta certa seria, será que eu quero me proteger?

Eu não sabia. Certeza era o que menos poderia chamar de meu àquela altura. Sem pensar no sol, a única coisa que sobrava na minha cabeça era ela. Não adiantava lutar contra um sentimento tão absoluto. Esquadrinhava todo o seu rosto em questão de segundos, cada dobra da sobrancelha, cada sulco das bochechas, cada marca das acnes juvenis. Era fácil prever ali um sorriso convidativo, ou um misterioso, ou ainda uma gargalhada desamparada, sem amarras.

Abria e fechava os olhos observando bem à minha frente aqueles lindos cabelos loiros, que se derretiam pela testa fazendo uma leve volta ao se aproximarem das orelhas. Imaginava que tipo de olhos combinariam com aquele rosto angelical. Verdes? Azuis? Castanhos? Acreditava mais em um azul acinzentado, de pouco brilho, que talvez combinasse mais com as olheiras suaves que ela guardava em bolsas fofas embaixo das pálpebras encerradas. Arredondados, acinzentados, tristes, desesperançosos. Lindos.

Pelo que conseguia observar, tratava-se de uma garota alta para os padrões. Estatura e porte de modelo, pensei comigo, mas a personalidade avessa a tais condições. Em meus devaneios me imaginava encontrando-a em uma biblioteca, e não em uma boate. Ao pensar em música. nos colocava em situações como em um show de bandas como Portishead ou Antony and the Johnsons, ou em casa, sob um frio calamitoso, envoltos em edredons e pernas e braços e nosso próprio calor ao som do Radiohead.

Não sabia nada sobre ela, mas fazia tudo parecer tão cristalino e óbvio, como se a conhecesse desde criança, como se tivéssemos crescido juntos, nos conhecendo a cada dia, descobrindo a vida e suas artimanhas a cada buraco em que caímos de mãos dadas. No meio dos devaneios aquele cheiro de flores tomava minhas narinas e meu cérebro de assalto, sem a menor complacência. E eu me pegava pensando nela em um campo enorme, ao sabor de ventos suaves, com uma daquelas flores presa em sua orelha, emoldurada pelos cabelos e fazendo uma bela combinação com o sorriso misterioso que imaginara antes.

Empunhava o meu próprio queixo para suportar a dor de cabeça e o cansaço daquelas tantas horas sentado no mesmo lugar, fugindo do sol e sentindo as pernas sucumbirem à dormência, quando me pediram licença. Sabia que era hora de me despedir do meu amor. Levantei-me com dificuldade, as dores me tomavam muito mais que o coração partido ao ver aquela paixão animalesca ir embora momentos depois de conhecê-la.

Um homem carrancudo e vestido de preto, sem marca alguma de felicidade no rosto, deu uma puxada violenta na tampa. A família dela, dando um passo à frente, me olhou como se me repreendesse, Alguém cochichou um pouco alto demais a pergunta "quem é esse daí?", mas ninguém sabia responder. Nem eu mesmo sei porque entrei naquela sala aquela hora, estava caminhando para casa e de repente me vi lá dentro. Agora, prefiro acreditar que foi a mão do destino quem me indicou o caminho para aquele amor tardio.

Com a tampa do caixão fechada, não a vi mais. Alguns homens se aproximaram e agarraram as alças mostrando força e pesar em suas expressões. Hora do enterro. Meu coração se partiu em um milhão de pedaços irrecuperáveis. Levantaram o corpo fechado naquela massa de madeira ao som de um canto religioso qualquer, capaz de arrancar de mim a primeira lágrima da tarde em que me apaixonei por uma menina morta.

Escrito por Bruno às 16h45
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Uma pequena dose de desespero

Um dia ela começou a chorar de repente, aparentemente sem motivo algum, apenas porque a vida se tornou tão cheia de coisas e motivos para chorar que ela não via lógica em se manter com o rosto seco, as lágrimas encerradas em suas devidas glândulas e os olhos ainda brancos, sem sequer uma rajada vermelha de tristeza. Não fazia sentido ser feliz.

Achava estranho não sentir o desespero seco de quem não sabe o que quer da vida ou o receio de morrer antes de conseguir realizar seus sonhos. Também não entendia bem que algumas pessoas sofressem tanto mas que suas próprias reclamações em tantos anos de vida mal enchessem uma mão. Até sentia medo vez ou outra, mas era sempre rapidamente confortada e via sua temeridade passar ao largo, diferente de gente que vive trancado em algum lugar, aterrorizada com a vida que leva.

Pensou que era feliz, e era mesmo. Feliz, rica, bonita, cheia de amores dados e recebidos. E não havia nada mais triste do que isso. Não podia conceber que as pessoas não conseguissem ter ao seu lado os que amam, não compreendia como alguém vivia sozinho no mundo, sem amigos e sem família, e que ainda conseguiam respirar sem que o nó na garganta os impedisse. E era exatamente esse nó que ela queria sentir agora.

Uma pequena dose de desespero. Podia parecer pouco, mas para ela era o bastante. Chorou lágrimas copiosas por alguns minutos e depois parou, enxugou o rosto, retocou a maquiagem e voltou para a sua vida perfeita de sempre.

Escrito por Bruno às 22h49
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Mojo Books apresenta: "Neon Bible", recontado por Bruno Reis

"Neon Bible" é o nome do segundo disco da banda canadense Arcade Fire. E também é o nome do meu e-book que foi lançado hoje no site da MOJO: www.mojobooks.com.br.
O projeto Mojo Books é definido assim pelos próprios editores: "se um disco pudesse ser convertido em palavras, que história ele contaria? Com essa proposta surge a coleção MOJO BOOKS, livros que tentam versar em prosa as músicas contidas nos mais diversos álbuns".

Sinopse de "Neon Bible":
Um homem atormentado pela culpa e rodeado de fantasmas quer fugir desesperadamente do seu passado. Para isso, parte em uma viagem sem começo, meio ou fim, navegando em mares imprecisos para tirar da consciência uma dor aguda que não o deixa dar sequência em sua vida: o arrependimento por ter matado a própria mulher.

Caso alguém se interesse, é só entrar no site e fazer o download do livro. Não se preocupem, não paga nada. =)
O endereço: www.mojobooks.com.br

Obrigado e até logo.

Escrito por Bruno às 17h00
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Mensagem

As horas passavam e meus dedos não se moviam. Estava ali assim há horas, completamente congelado. Os olhos pareciam vidro, chapados, imóveis. Os cabelos se revoltavam com o vento morno que escapulia janela adentro, mas eu não movia um músculo para tirar-los da testa. Nem mesmo para enxugar o suor gelado que escorria vagaroso e sempre. Resolvi tentar respirar, e o fino espaço que o ar ganhou me fez garantir a própria vida pelos próximos dois minutos.

O oxigênio me deu alguma força, o bastante para que eu conseguisse digitar as primeiras letras. Era doloroso sentir meus dedos pressionando aquelas teclas, iluminadas apenas pelo brilho constante do monitor. Era a única luz em um quarto escuro e deserto, minhas mãos em rajadas de um cinza morto agora conseguiam refazer os movimentos básicos e cheguei às primeiras palavras. Cada uma delas era uma vitória, sentia a ponta dos meus dedos formigarem, como se eu tocasse uma grelha, e não um teclado de computador.

Dizem que antes de morrer vemos um filme da nossa vida passar frente aos olhos. Parece-me agora que isso não é privilégio apenas dos moribundos sem salvação. Enquanto escrevo vou observando todos os detalhes de cinco anos e onze meses de um amor inexplicável, e eles escorregam pela minha retina em uma velocidade impressionante. Os primeiros beijos, as segundas intenções, as terceiras pessoas, as quartas-feiras de cinema, as quintas de belas macieiras que conhecemos no Sul. Os concertos de nossas bandas preferidas e os consertos desajeitados do armário da casa dela. As idas ao mosteiro e as vindas ao meu quarto. Tudo era lembrança. Tudo era passado.

Os detalhes são os mais dolorosos. A maneira descompassada que ela acorda, como se estivesse completamente desorientada, a cara que faz quando é publicamente contrariada, torcendo as sobrancelhas até o limite do real. O ódio mortal de cócegas na sola do pé e o prazer de fazê-las em mim como vingança. A forma como as mãos inquietas me tocavam ao mesmo tempo a nuca e o braço esquerdo, no cinema ou no teatro ou nos almoços de família. É como se cada tecla digitada liberasse uma lembrança, e haja teclas e haja lembranças. Agradeci não estar escrevendo um livro.

Nunca demorei tanto para compor três simplórias linhas quanto naquela noite quente de dezembro. Consegui puxar mais um pouco de ar, senti a boca seca colar meus lábios à procura de uma gota sequer. Nada. Apenas uma melancolia dolorosa gotejava no teclado e refletia-se na tela. Resolvi que havia terminado, li os escritos em voz alta para tentar me convencer do que acabara de escrever.
- "Roberta, parabéns pelo seu casamento. Não poderei comparecer à cerimônia, mas espero que você seja muito feliz ao lado do homem que escolheu para passar o resto da vida. Ainda que este homem não seja eu. Ame-o sempre, pois eu o farei por você, por toda a minha vida. Saúde e alegria. Eternamente seu."

Consegui respirar uma vez mais, agora com um certo alívio que se transformou em uma nuvem escura quando soltei o ar. Era tudo o que eu queria e poderia dizer naquele momento. Tateei à procura do mouse no meio da escuridão, encontrei-o e não perdi tempo. Cliquei em "enviar" sem reler mais uma vez. Não precisava. Cada letra daquela mensagem de e-mail ficaria gravada para sempre na minha mente, em uma lápide que construí especialmente para ela.

Escrito por Bruno às 10h26
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A primeira

Para tudo existe uma primeira vez na vida. Tudo mesmo. O primeiro tombo, a primeira conquista, o primeiro amor, a primeira briga, o primeiro atraso, a primeira transa. O campo das decepções amorosas também precisa ser inaugurado de alguma forma. A minha primeira decepção amorosa eu nunca vou esquecer.

Tudo começou num daqueles dias infernais de verão da década de 80, quando o mínimo de roupa era o máximo que conseguíamos aguentar sobre nossas peles. A molecada que ocupava as casas de veraneio naquele janeiro de poucos ventos passava as manhãs na praia e as tardes na rua São Paulo, indo do pique-esconde às peladas no chão de pedras pontudas, do pique-pega aos jogos de vôlei com rede pendurada entre os postes, do elástico ao "frênis" - um jogo criado por nós que misturava algumas regras do tênis e do frescobol. Suar era uma constante para aqueles garotos. Mas derreter-se por uma garota ainda era de certa forma novidade.

Também era novidade ver uma dessas garotas e não sentir uma imensa vontade de puxar seu cabelo para vê-la sofrer, e sim puxar para fazê-la prestar atenção em mim por alguns segundos. O calor irradiado pelo sol se misturava às primeiras impressões que uma menina despertava em mim. Por causa dessa sensação de sufoco ao ar livre - causada até aquele momento apenas pelo sol - criei uma mania do alto dos meus 6 anos: ao sair do banho me secava pouco, o bastante para não ficar totalmente molhado mas para poder sentir o frescor do raro vento lambendo minha pele úmida. Confesso que me achava um gênio e não entendia por que as pessoas se secavam tanto ao sair do banho. Bastava seguir minha idéia revolucionária e o mundo seria um lugar mais habitável mesmo no mais fervilhante dos lugares.

Em tão pouco tempo de vida, novidade era o que não faltava pra mim. Mas eu nunca poderia adivinhar que a que viria a seguir ia me fazer corar ao menor sinal de lembrança até hoje. O fato é que resolvi contar para uma tal menininha sobre a minha idéia revolucionária pós-banho. Ela, que era o maior motivo de eu ter passado a jogar frênis na frente da minha casa, ao invés de nos fundos, como era de costume. Ela, que era a responsável por eu ter parado de lambuzar o nariz de hipoglós quando rumava para o mar segurando minha Morey Boogie Mach-77. Ela, a primeira que merecia saber que eu era um pequeno gênio incompreendido, um revolucionário na arte de viver sob o esbufante calor de 40º.

Naquela tarde abafada o sol resolveu não sair. O mormaço das três da tarde pode castigar mais do que se imagina. Por isso, resolvi deixar o corpo com aquela fina camada úmida após o banho, e segui em direção à casa do Olavinho, aquela branca-amarelada em frente ao segundo quebra-molas, onde a turma se reunia para começar as brincadeiras todas as tardes. Lá estava ela, sentada no parapeito baixo da varanda, os pés balançando sem encostar no chão, o rabo-de-cavalo perfeitamente montado, e os olhos inquietos de quem não agüenta mais esperar pelo começo do pique-esconde. Ela mirava os possíveis esconderijos. Eu mirava a minha primeira paixão.

Fui chegando de mansinho e me aproximei de todos, dando um oi tímido, como se a molecada toda já conhecesse a audácia do meu plano. Ela respondeu, mas sem nem ao menos olhar para mim. Achei que aquela era a minha oportunidade de fazer um contato mais próximo. A mim parecia infalível comentar sobre a minha própria descoberta. Era isso: eu era inteligente e ela precisava saber disso.

"Oi. Sabe o que eu faço quando saio do banho? Me seco só um pouquinho. Aí eu fico um pouco molhado e quando o vento bate em mim é bem mais fresquinho."
"(silêncio)"
"É muito bom."
"(silêncio)"

Sim, silêncio, o mesmo que ocupava o nosso mundinho antes de eu abrir a minha boca para falar qualquer coisa. Ainda quieta ela desceu do parapeito, catou a primeira bola que quicou na sua frente e saiu correndo para o vôlei sem nem lembrar do pique-esconde que ia começar em instantes. Eu continuei exatamente no mesmo lugar pelos sessenta minutos seguintes, tentando entender o que havia dado errado e por que eu merecia ser ignorado daquela maneira.

Depois daqueles minutos imóvel e sentindo um vento inútil me refrescar, percebi que não conseguiria entender patavina e me rendi ao frênis que meu irmão já iniciara, como forma de repor as energias gastas com aquela minha primeira decepção amorosa. Eu precisava me recompor do fora. Em poucos minutos, minha mente infantil já havia se desdobrado em brincadeiras e piadinhas para acobertar qualquer sentimento ruim. Apenas muito tempo depois pude perceber que naquele exato dia de calor intenso e crianças impossíveis a minha vida amorosa havia começado de verdade.

Escrito por Bruno às 17h11
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De perdas e recomeços

Tudo começou como não deveria começar. Mas começou, assim como costumam começar as coisas, pelo começo que teve. E que não se discuta se foi um bom começo ou não. Mais importante que isso foi começar, simplesmente. E, já de começo, comecei a perceber que começava a me perder em começos e recomeços, esses que eu julgava impossível começar de novo. Mas fui, começando devagar, e em pouco tempo percebi que para se perder basta começar a se deixar levar.

É nos olhares que eu me perco. Poderia passar horas do meu dia apenas observando os olhos aguçados, que por vezes se fecham tanto que se perdem lá dentro. Deixam apenas um suave contorno arredondado à mostra, como uma castanha madura recolhida no interior da mão fechada. Escondem-se para em breve recomeçar a aventura de se abrir e se mostrar de novo, o branco levemente avermelhado, o castanho recebendo o banho negro das pupilas. E se viram para mim, e eu me perco de novo.

Tanta perdição e tanto recomeço. Incríveis conexões que não se mostravam, se negavam a ser até o dia em que começaram a se perder novamente. Todas as palavras que eu ouvi, todas as recomendações, todas as previsões, tudo se perdeu em um recomeço regojizante, inesperado, que não veio sem antes causar discórida e balbúrdia. Mas era assim que tinha que ser. A vida é feita de recomeços, a começar pelo dia que começa quando mal terminamos de engolir o anterior.

Atônito pelo sabor do mundo novo que começa a mostrar os caminhos da mais nova perdição, tateio em busca de uma segurança que não preciso. Quando as coisas começam da maneira que não deviam, só podemos deixar que elas se ajeitem no percurso. E é exatamente isso que acontece. Perco-me nos caminhos certos de quem começou errado. Perco-me, mas não perco o sabor de um novo recomeço.

Escrito por Bruno às 10h25
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Participação especial

A porta do bar se abriu. Lá dentro, uma banda de rock tocava uma música chata do U2. Algumas pessoas davam passos desconexos à frente das luzes que destacavam o palco. Aos passos, chamavam de dança. Mesas de plástico foram espalhadas na outra metade da pista - aquela onde ninguém dançava. No meio das mesas e cadeiras. um corredor se abria para a passagem dos frequentadores. Ao fundo do bar, um balcão alto resguardava o barman, seus drinques, as cervejas e os tira-gostos. Lá, alguns homens e mulheres conversavam animados, berrando suas frases para serem escutados por toda a turma ao mesmo tempo.

Ao lado do balcão, uma porta levava a um varanda estranha. "Fumódromo", diziam uns. Lá fora o som mal chegava, a banda não passava de um assobio mal ajambrado e as pessoas conversavam com mais calma, entre um trago e outro no cigarro. Mas lá de fora não se via a imagem deslumbrante que atravessou aquela porta que se abriu. Lá de fora ninguém imaginaria que entrou agora uma figura de cabelos negros e suaves, deslizando ombro afora em contornos macios sobre a pele levemente bronzeada. Os olhos verdes fulguravam acesos, quase saltando à frente dos seios arredondados, escondidos sob o vestido verde escuro.

Caminhou sem pressa pela primeira parte do bar. Passou ao lado da banda olhando para frente, sempre para a frente, e seu andar desestabelecia qualquer verdade absoluta. O guitarrista da banda não conseguiu tirar os olhos dela. Só o fez quando reparou que alguma coisa havia acertado a sua nuca com certa violência: era a baqueta do baterista, que escapou de sua mão quando observava a aparição que surgira porta adentro. O vocalista esqueceu a letra da música, emendou um "lalalá" qualquer para não dar na pinta e tentou se concentrar. Em vão.

Enquanto passava pelo corredor armado entre as cadeiras e mesas, ela sentiu que os pescoços se contorciam todos para o seu lado. Parecia gostar de causar tamanha comoção, se aprumava ainda mais quando notava um babão sonhando acordado com aqueles quadris perfeitos, ou uma invejosa desejando secretamente chegar aos pés dela algum dia. Lá de fora, na varanda-fumódromo, o rapaz percebeu que alguma coisa acontecia dentro do bar. Chegou-se à porta e se embasbacou com a mulher. Apenas mais um para o time de apreciadores daquela carne rara.

Os dançarinos à frente da banda erravam os passos pré-ensaiados. Formado por homens e mulheres, o grupo se mexia sem muito recurso, tortos no olhar, desavisados, chocando-se levemente uns aos outros, o ritmo caindo pelas tabelas. A banda não sabia se tocava ou se abaixava em joelhos, a reverenciar aquela beleza atordoante. Sozinha, linda daquele jeito, provocante e sutil como poucas
sabem ser. Os ocupantes das mesas arrastavam as cadeiras para conseguir um ângulo privilegiado daquela visão. E o rapaz do lado de fora espreitava na porta o que aquela paisagem faria a seguir.

Com seu caminhar ritmado, calmo, ela parecia estar em uma passarela. Todos os olhares a buscavam, todas as atenções iam para ela. A mulher parou o bar. O corredor, curto como era o próprio bar, parecia ter quilômetros e quilômetros, apenas para que ela desfilasse sua beleza alva, a formação perfeita do corpo e aqueles cabelos de propaganda de xampu, que deixavam no ar um rastro perfumado que atordoava os presentes.

Mas ela não notara que, logo após as mesas e cadeiras, havia um ressalto para que chegasse ao balcão. O primeiro pé passou incólume, o segundo topou com o pequenino degrau, imenso àquele instante, o bastante para fazer com que todo o peso do seu corpo fosse arremessado para a frente, fazendo com quem ela se estatelasse no chão com uma violência contida, seca. No momento do tombo, um "oooohhhh" uníssono tomou o estabelecimento. Até mesmo o vocalista se insurgiu contra o tombo, sem notar que estava com a boca à frente do microfone. A bateria parou, e o músico saiu imediatamente de trás dela para não perder nenhum detalhe.

A queda, a bem da verdade um senhor tombaço, fez com que seu rosto deitasse no chão imundo ao lado dos braços e das mãos, que ainda tentaram protegê-la. O vestido subiu pelas pernas bem torneadas e deixou à mostra muito mais do que devia: alguns, mais observadores, notaram até mesmo um leve furo na costura da calcinha. O dono do bar saiu de trás do balcão e ofereceu sua ajuda. Acuada, ela levantou o braço direito e aceitou a mão amiga. Levantou-se ainda recebendo todos os olhares à sua volta. Pôs-se a limpar a poeira do vestido, as manchas cinzas clareando o verde escuro do vestido.

Depois, nem deu tempo para mais nada. A morena saiu andando com velocidade pelo mesmo caminho que entrou. Capengando da perna direita que topou no ressalto, seu andar antes faceiro era agora medonho. Ainda sentindo o peso de todos os olhares da festa , saiu escangalhada pela porta que, minutos antes, se consagarara. Ao primeiro toque da bateria, a música recomeçou e a balada continuou até altas horas da noite. Afinal, ela não era a dona da festa. Foi apenas uma participação especial.

Escrito por Bruno às 09h52
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Blog defeituoso

Sim, apesar deste template estranho e tudo mais, é o mesmo blog de sempre.
Quer dizer, quase igual.
Um defeito desconhecido de linguagem html daquela versão anterior me obrigou a mudar a cara deste espaço.
Não queria ter feito isso, gostava muito do outro layout, mas era a única forma deste blog continuar existindo.
Não tô muito satisfeito com o UOL Blog, e se por acaso vocês chegarem aqui um dia e virem que o Misquilinas mudou de endereço, não estranhem.
Até.

Escrito por Bruno às 18h04
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Palavras demais, sentimentos de menos

Abri a boca para falar, mas empaquei. Parece que travou de repente, tão de repente e tão sincero quanto a vontade de falar que chegou sem dar sinais. Apenas parecia destinada toda a vida a sair, uma frase que foi feita para aquele momento, exatamente aquele, e que a partir de hoje todo mundo ia ter que pagar direito autoral ao verdadeiro criador dela - eu, claro. Foi estranho, ela veio na ponta da língua e parou, como um pássaro que acha a porta da gaiola aberta e por institnto vai rumo à saída, mas pára e apenas coloca a cabeça de fora quando lembra o mundo confuso e aniquilador que há ali fora.

Talvez tenha sido a razão. Ela, sempre tão competente em brecar ímpetos e nos salvar de futuras situações complicadas. A razão parece que fica como um bom guarda noturno, fingindo sonolência no cantinho da sua mente, como se nem existisse. Mas ao menor sinal de perigo lá está ela, saltando dos confins das dobrinhas do cérebro direto para a língua, segurando com mãos de pilão uma frase que, a bem da verdade, nada tinha de ameaçadora ou perigosa. Era só alguma coisa que saiu da gavetinha onde a gente guarda nossos momentos memoráveis. Era como uma resposta a um deles, ou a um conjunto deles, uma centena. Mas acho que neste caso era mesmo apenas um, tão significativo e tão forte que não era preciso mais nada. Mas a razão estava lá, e segurou as ondas.

Dizem que a gente não deve guardar essas coisas pra gente. Pode dar câncer, dor de barriga, caxumba ou caspa, nunca me lembro bem o que as pessoas dizem nessas frases feitas. Só lembro de uma pessoa, há muito tempo atrás, dizendo que tudo que saía daqui do meio do peito tinha a obrigação de vir para fora. Era alguma coisa como um grito de socorro torto, onde você não precisa ser salvo, precisa apenas dizer que foi salvo. Um agradecimento? Não sei se tanto, mas agora vejo porque a razão se adiantou à minha frente para parar a frase. Pode parecer bajulação à essa altura dos acontecimentos. Pode ser muito cedo. Pode assustar. E aí sim, eu vou precisar urgentemente de socorro.

Além disso, é tão cedo que ainda não se pode esperar nada como resposta. Ora bolas, o tempo mal se fez presente e eu já estou querendo escutar coisas. É, porque dizem que quem fala quer ouvir. Ah, e daí também? Sabe o que acho? Que as pessoas dizem muitas coisas, mas se embolam completamente na hora de sentir. Falam demais, sentem de menos. Talvez se a gente fosse menos verbo e mais ação as coisas seriam muito mais sinceras. Nada contra verbalizar um sentimento, mas antes precisamos senti-lo de verdade. E é isso que acontece comigo agora, enquanto ainda estou com a boca aberta como quem vai falar alguma coisa e ela está do outro lado da mesa, olhando com atenção e aguardando a minha decisão. Decidi.

- Você é linda e eu acho que to apaixonado.
Pronto, saiu. Nem sei onde coloquei a razão, acho que ficou atrás do último dente do lado direito superior, ao lado do chiclete. A boca que estava aberta falou e se fechou e, quando eu já não sabia bem o que esperar, ela recebeu um beijo gostoso, acompanhado de um abraço apertado e um cafunezinho na nunca. Sem verbalizar nem nada, acho que ela quis dizer "eu também". Tá vendo, acho que o mundo poderia ser bem melhor assim, com menos palavras e mais sentimentos. E, de preferência, mais beijos como esse.

Escrito por Bruno às 19h19
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Através de mim

Qualquer um consegue enxergar o que eu sou por dentro. Menos você, que não é qualquer uma. Menos você, que se dá ao trabalho de procurar em mim coisas que eu não sou, realidades que você gostaria de viver. Até onde vai a nossa capacidade de inventar no outro o que queremos para nós? A sua parece infindável. Quisera eu ser bonito como você sempre quis que eu fosse. Quisera eu ser atlético e usar as roupas que você quer que eu use, comprar o carro que você acha que devo ter, ser chique e refinado como você sempre sonhou. Quisera eu. Peraí, e quem disse que eu quero?

Eu não sou um espelho. E eu também não sou quem você quer que eu seja. Sou transparente. Sou fácil. Qualquer um pode ver o que eu trago na alma, para me conhecer basta uma conversa, algumas horas, talvez um ou dois dias. Tenho poucos mistérios à primeira vista. Claro, guardo meus segredos na manga, não quero ser tão fácil a ponto de perder a graça. Há coisas minhas que eu mesmo mal sei, portanto sente-se e espere a sua vez de saber. Se é que ela chegará, porque só quem me conhece pode tentar perceber o que eu guardo lá dentro, escondidinho.

Você pode me partir em pedacinhos minúsculos, me espalhar em uma mesa ampla, separar as partes e analisar uma a uma - não adianta. Você não conseguirá ver o que outros vêem. Você nem ao menos quer. Tentar me moldar não vai funcionar. Só molda quem conhece a forma antiga. Desista de fazer de mim o protótipo que seus pais pedem na hora da oração noturna, "Deus, traga para ela um bom rapaz". Sou mais que bom, sou ótimo, espetacular. Mas à minha maneira. De um jeito próprio, especial, que nenhuma outra pessoa sabe ser. Talvez ele não seja bom o bastante, ou talvez não combine mesmo com você. Talvez você nem saiba o que quer.

Então te peço de uma vez por todas: se você só consegue ver através de mim, esqueça. É a prova maior de que a sua insistência é burra, inócua. Atravesse a rua da sua vida, entre no carro dos seus sonhos, procure o homem que você sempre quis ter. Molde-o. Remende-o. Construa o seu Frankenstein. Saia com ele saltitante de alegria. Caminhe com ele pela praia. Chame-o para uma piscininha vespertina. Viva. Mas me deixe viver aqui, com os segredos que só alguns merecem conhecer, os erros que se jogam à minha frente e o orgulho intacto de quem prefere ser por si só a não ser por alguém.

Escrito por Bruno às 19h08
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1 ano de Ópio no Café

Hoje a coluna Ópio no Café completa um ano.
Se você é leitor deste blog, deve conhecer a dita cuja aniversariante, alojada lá na Revista Paradoxo.
Se não, o caminho é exatamente esse: http://www.revistaparadoxo.com/materia.php?editid=53
Dê os seus parabéns.
Eu agradeço desde já.
=)

Escrito por Bruno às 00h30
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Peças pregadas

O caminhar era tranquilo, os passos leves não denunciavam o motivo do passeio. Parou de frente para a porta sem saber se abria ou se observava pelo vidro, entre os adesivos de letras e palavras e números e preços. Não queria aparecer muito, e nem ver mais do que precisava. Não esperava aquele contato visual, aqueles olhos faiscantes, o nariz arrebitado, a blusa verde e o cabelo que mal chegava nos ombros. Não esperava a dúvida, queria apenas fazer a sua parte, cumprir o combinado. Não esperava que o destino fosse lhe pregar essa peça, e por isso o chamamos de inesperado.

A dívida era de sangue, de orgulho ferido, de hombridade. Não havia espaço para desistência ou sentimentalismos, e agora ele apenas observava como o destino pode ser cruel quando assim entende ser. A mulher olhava insistente, um sorriso tímido brotava vez ou outra de um dos lados de sua boca. O verde de sua blusa parecia ser um sinal de que ele deveria avançar por aquela porta, abrir espaço entre as pessoas e dar de encontro com ela entre as bancas de roupas de praia, jogá-la nas costas e sair de lá a passos duros e largos, rumo a um lugar onde poderiam confirmar o que o simples olhar denunciava.

Apenas devaneios que o impediam de encarar a realidade. Poucos segundos de contato visual, um sorriso tímido, uma blusa verde e cabelos negros que não chegavam nos ombros. Tudo se embaralhava. Vontades. Sonhos. Dever. Necessidade. Vingança. Não foi ele quem decidiu que o mundo fosse injusto assim, nem que aquilo que tem que ser feito seja consumado independente do que se põe à frente. Queria esquecer aquele olhar, relegar os parcos segundos a uma memória sombria do dia em que viu um futuro nos olhos de uma moça no fundo da loja de roupas. Não queria, precisava. E a necessidade é a mãe das vontades. Ou alguma coisa parecida com isso. Certo mesmo era que ele precisava dar jeito.

Atravessou a rua com os mesmos passos calmos de quando chegou. No meio dela, virou-se para trás e viu que a mulher começava a caminhar em direção à porta. A loja era relativamente extensa, várias pessoas estavam no seu caminho. Mas ela queria sair. Ao aportar na calçada do outro lado da rua, ele fez um leve sinal com a cabeça e proferiu em tom relativamente baixo a palavra "agora". Quatro homens saíram imediatamente de um carro estacionado na frente da loja. Dois deles carregavam galões. Os outros dois, pistolas semi-automáticas. Capuzes cobriam seus rostos. Todo a movimentação não durou cinco segundos. Eles já estavam dentro da loja.

Quando a porta de vidro se fechou, lá de fora nada se ouvia. Muito menos do outro lado da rua. Parado de frente para a loja, ele apenas observava. Os homens apontavam suas armas, as pessoas levantavam as mãos. O desespero dos rostos dava a ele uma leve agonia, que vez por outra se misturava com euforia. Segurava tudo isso com as mesmas feições impassíveis. Lá dentro, os homens dos galões começaram a espalhar o líquido nas roupas, no chão, nos cabelos das pessoas, nas baias, nos tapetes. De repente, um dos homens das pistolas saiu da loja e se colocou no banco do motorista do carro. Em questão de segundos a loja se acendeu com labaredas enormes. Ironia, o fogo tornava a pobre loja mais viva.

Um dos homens do galão saiu, seguido do outro, e do outro da pistola. Trancaram a loja pelo lado de fora, entraram no carro e arrancaram rumo à impunidade. Agora o homem do outro lado da rua conseguia ver mais uma vez aquela mulher. Agora ela não sorria. O olhar era de puro desespero. O nariz empinado não estava suportando a fumaça e o fogo. A blusa verde estava parcialmente queimada e os cabelos já não existiam. Só era possível ver as chamas que tomavam sua cabeça e desciam a lamber sua testa. Ele já havia visto demais. Seguiu seu tranquilo caminhar sem pensar em muita coisa. Só no destino, o inesperado, que hoje viu que os homens também sabem pregar-lhe peças.

Escrito por Bruno às 08h49
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Para você

Hoje acordei com isso na cabeça: precisava escrever para você. Pensei muito em te mandar um e-mail, uma carta, uma mensagem via pombo-correio ou quem sabe até bater à sua porta e falar assim, na cara, de frente, olhos nos olhos, tudo o que eu tenho para dizer. Sabe quando alguma coisa parece estar presa na garganta? É exatamente assim que me sinto quando penso em você, e foi assim, multiplicado por cem, que acordei hoje. Falar tudo isso era mais que uma vontade - é questão de necessidade extrema. Eu sei que cedo ou tarde você vai ler essas linhas e vai se reconhecer. Portanto, sente-se, faça-te confortável; vou começar.

É difícil, muito difícil resistir a você. É difícil te ver passando, linda como sempre, e não fazer nada. Você vem povoando meus sonhos faz tempo, me deixando tonto ao acordar apenas pela vontade de não despertar nunca quando estou sonhando com você. Já perdi a hora centenas de vezes por tentar continuar o sonho bom e esquecer que todo mundo tem hora pra acordar, hora para chegar no trabalho, hora de esquecer os devaneios e lembrar que há uma vida inteira, de verdade, para tocar. Nos últimos tempos, aliás, a vida para tocar tem sido mais sacrificante do que qualquer coisa. A concorrência com os sonhos não é moleza.

Eu queria saber o que passa pela sua cabeça. Entender o que há de verdade, o que há de fantasia, o que você pensa da vida, do Drummond, do Fincher ou dos Butler, se é que você conhece todos eles - bem, acredito que sim. Queria saber se você também sonha comigo, se lembra do dia que nos conhecemos, das vezes que nos encontramos por acaso, da roupa que eu usava, da bebida que bebemos e dos assuntos dos quais rimos. Bem, eu me lembro. De tudo. Cada detalhe, até da cor dos seus sapatos naquele dia em que a escuridão tomava conta do ambiente e eu tinha que aproveitar os raros momentos de iluminação para fazer a fotografia mental de você. E essas fotografias não estão guardadas em uma gavetinha mofada no meu cérebro. Nada disso. Estão expostas para mim, à frente dos meus olhos, como se eu precisasse vê-las a todo momento. Pensando bem, talvez eu precise mesmo.

Das nossas conversas prefiro nem falar. É coisa nossa, e só a gente precisa saber. Melhor não me aprofundar no assunto, já o fazemos demais quando conversamos. Esta inclusive é uma das minhas partes preferidas. Ainda que não façamos todos os dias, conversar com você é sempre gostoso. Sua forma de encarar as coisas vive me surpreendendo, e nada neste mundo é tão excitante do que ser surpreendido de maneira positiva. Seu humor é fascinante, você tem sempre uma tirada engraçada e inteligente para cada comentário que faço. Assim fica difícil mesmo não sonhar com você, não te querer o tempo todo, cada minuto do meu dia. E fica impossível não sofrer com essa falta que você me faz. Engraçado, não? Sentir falta de algo que não temos, que a bem da verdade nunca tivemos? Pois é.

Talvez você esteja se perguntando, "mas por que ele não fala comigo pessoalmente?", e eu me faço essa pergunta todos os dias. Não sei a resposta ainda, mas prometo que quando descobrir você será a primeira a ficar sabendo. Você merece saber de tudo, do sentido da vida até a cura do cancêr, dos meus mais íntimos sentimentos até o que eu li na semana passada. Tudo. Por isso resolvi escrever para você, e estou certo de que a carapuça vai servir direitinho. E no minuto em que você terminar de ler tudo o que escrevi, seja ele qual for, não tenha dúvidas: eu vou estar pensando em você.


Escrito por Bruno às 09h57
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Matéria que vai

Caminho de cabeça baixa, me protegendo dos gritos estridentes e dos choros mudos. Sei de tudo que acontece ali. Para onde olho vejo lágrimas escorrendo aos borbotões, gente desesperada, que não consegue ainda imaginar como seguirá a vida após aquele trágico acontecimento. Estou em um cemitério, e eu só sei que não gostaria de estar aqui. Os passos seguem descoordenados. Pulo corpos, corpos e mais corpos. Sinto os meus pés atolando em uma grama fofa, e sei que embaixo de mim há muita gente morta, restos de matéria, vidas que acabaram. Não desejo cair, nem enfiar até a canela neste terreno pouco confiável. Mas esta é exatamente a sensação que tenho.

Atrás de mim outros seguem esse ritual de caminhar sobre os mortos. Leio os nomes nas placas e penso que não gostaria que o meu estivesse ali, sendo pisoteado sem dó. Incômodo, mas não mais do que estar ali vendo alguém partir, um conjunto ensaiado de braços, pernas, cheiros, texturas, uma vida completa indo por terra abaixo. Alguém que usava roupas, que comprou calcinhas da cor predileta, que deu um orgasmo a alguém utilizando partes deste mesmo corpo que agora vai ser guardado em uma caixa de madeira de lei, envernizada por fora e congelada no tempo por dentro.

Sejamos sinceros, nós nos resumimos a coisas físicas. Pensar é bonito, conversar coisas boas é legal, mas se isso fosse o mais importante todos os relacionamentos à distância dariam muito certo. E todos sabem que não é assim. Não faço aqui apologia de belos corpos, culto ao físico, nada disso. Só acho que não dá pra imaginar você sem o seu corpo, não dá pra pensar em você sem o seu braço fino, a sua cabeleira que cresce a cada dia, os seus seios vistosos e a sua celulite na bunda - desculpe, mas ela também faz parte de você. Somos matéria, pura e simples.

E é ela que se despede agora, neste cemitério ensolarado, cheio de pessoas que não sabem bem o que estão fazendo aqui. Exatamente como eu. E enquanto conto mais alguns passos sobre corpos e mais corpos enterrados no chão ao lado de suas plaquinhas de pedra, a única coisa que consigo imaginar é a falta que faz um peso sobre a cama, o cheiro doce e conhecido do suor, a forma de entrelaçar os dedos e de apertar a barriga com as palmas das mãos. Matéria, somos apenas isso, e vivemos para fazer dela a peça que mais vai deixar saudade um dia.

Escrito por Bruno às 18h47
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Filme

O filme é meu. Nele, ando em meu carro pela cidade à noite, aparentemente sem destino. Não acelero até o fim, apenas mantenho o pé sem exagerar, mantenho minha velocidade, mantenho minha cabeça. A trilha é I Defy, da Joan as Police Woman, faixa em que ela divide os microfones com Antony, aquele do "...and the Johnsons". O filme é meu. A vida é minha. A canção é deles. Agora, minha também. As ruas são minhas. As pessoas, poucas que transitam a essa hora, que atravessam na faixa, que correm o asfalto, elas agora são minhas. O filme é meu.

Pego uma sequência de sinais abertos e por isso não preciso movimentar meu pé direito. Ele continua à mesma altura, sem sequer ir um pouco para cima. Quando entra o vocal de Antony o meu reflexo pede que eu aperte mais o acelerador, mas eu não o faço. O filme é meu, a aceleração é decisão minha, a velocidade consquentemente também. O meu destino é a única coisa que não consigo controlar, mesmo que tudo aqui dê a sensação de que sou o dono desse mundo. Talvez desse mundo, mas nunca do meu destino. Observo a praia vazia, as poucas luzes de iluminação da orla que ainda funcionam deixam tudo mais obscuro, menos claro que uma pretensa escuridão seria capaz de deixar. Eu sigo.

Joan grita o terceiro "I defy I love your way" da música e eu não consigo conter aquele formigamento no pé - o mesmo das mãos, o mesmo do estômago, o mesmo das coxas que se balançam instintivamente. Calculo que no quarto refrão estarei passando em frente à casa dela. A casa é dela, o filme é meu. O meu coração é dela, o filme é meu. O meu pensamento sempre foi e sempre será dela, e não importa que o filme seja meu, que as luzes não iluminem corretamente a orla ou que Joan e Antony decidam nem cantar mais o quarto e o quinto refrão, ou que resolvam deixar apenas o piano ecoando por horas no meu ouvido, seguindo a batida da bateria. Não interessa se as pessoas não andam mais à noite e por isso a rua esteja tão vazia, não interssa nada. O filme é meu.

O meu braço para o lado de fora da janela denuncia apenas que quem decide onde ele ficará sou eu. Nada mais que isso. Antony diz "now I'm missing the real you". Junto com Joan canto, peço para mim o que há de mais bonito na música, a melodia, as frases em que nada mais que se quer é ter de volta aqueles momentos em que somos nós mesmos, verdadeiros, reais dos ossos aos cheiros, das unhas aos anseios, das vontades aos meios de se conseguir o que quer. O filme é meu, a canção é minha, o mundo é todo, tudo é meu. Antes de cena acabar, quando me aproximo veloz do sinal fechado e não faço o menor esforço para parar o carro, antes de observar que um outro veículo vai cruzar o meu caminho e ainda assim manter a minha aceleração, ouço os dois cantando "now I'm loving you / how could it be different?". Acelero. O filme é meu. Eu decido o final.

Escrito por Bruno às 21h27
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